A 10 de Junho de 2023, o Museu da Marinha, foi agraciado com o Grau de Membro Honorário da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.
Por iniciativa do Rei D. Luís I, através do decreto de 22 de Julho de 1863, foi criado o Museu da Marinha, tendo como missão salvaguardar e divulgar o passado marítimo português, assim como, tudo o que se relaciona com os mais diversos aspectos das atividades humanas no mar.
Inicialmente, este Museu deveria ficar instalado junto da Escola Naval para uma função essencialmente didática. Por isso, para a constituição do seu espólio inicial foram recolhidos os modelos de navios do Palácio da Ajuda, que D. Maria II doara à Academia Real de Guardas-Marinhas. Esta coleção deveria ser enriquecida com peças da própria Escola Naval.
D. Luís I era o segundo filho, que em jovem tinha seguido a carreira das armas como Oficial da Marinha. Foi obrigado a abandonar essa carreira, por morte prematura do irmão, para se tornar Rei.
Contudo, essa fase inicial da sua vida deu-lhe um profundo conhecimento da realidade naval e de toda a atividade marítima portuguesa. Com a sua elevada cultura, que possuía, percebeu a necessidade da criação de um Museu de Marinha durante o seu reinado.
Em 18 de Abril de 1916, ocorreu um incêndio na Sala do Risco, onde funcionava a Escola Naval, cujo fogo consumiu um grande número de peças do espólio museológico. Apesar da destruição, o Museu manteve-se sempre em funcionamento no mesmo local durante vários anos, mesmo quando, em 1936, a Escola Naval deslocou-se para o Alfeite.
Ainda em Lisboa, com a doação da extraordinária coleção de Henrique Maufroy de Seixas no ano de 1949, o Museu de Marinha mudou-se para o Palácio dos Condes de Farrobo, nas Laranjeiras. Estas instalações foram provosórias, porque nos anos de 1954 e 1956 foram nomeadas comissões para estudar a possibilidade de transferir definitivamente este Museu para a Ala Oeste do Mosteiro dos Jerónimos, cuja mudança concretizou-se a 15 de Agosto de 1962 e permanece nesse local até aos nossos dias.
O Pavilhão das Galeotas foi construído de raiz em finais da década de 1950 com o projeto de arquitetura do Professor Arquiteto Frederico George, tornando-se o primeiro edifício em Portugal que alberga as coleções museológicas da atividade marítima portuguesa.
Com um acervo constituído por modelos de Galés, embarcações reais, fluviais e costeiras, onde descobrimos navios que vão desde os Descobrimentos até ao século XIX, este Museu também possui uma vasta coleção de armas, fardamentos, instrumentos de navegação, assim como, cartas marítimas.
Bergantim Real
Em 1780, o Bergantim Real foi mandado construir por D. Maria I para o seu filho, o Príncipe D. João e sua esposa, a infanta Carlota Joaquina de Bourbon, encarregando o Ministro da Marinha, D. Martinho de Melo e Castro para a sua execução. Torcato José de Clavina, o primeiro-construtor do Arsenal Real da Marinha, foi o responsável pelo risco e construção desta embarcação que ficou concluída em 1783.
Esta embarcação é uma das peças mais deslumbrantes deste Museu, quer pela sua sumptuosidade, quer pelas circunstâncias históricas em que esteve presente, pois navegou durante 173 anos nas águas do rio Tejo, cumprindo sempre o papel de embarcação de cerimónia ao serviço da Coroa e mais tarde da República Portuguesa.
A sua decoração contou com o contributo dos melhores mestres da época, destacando-se a pintura barroca de Pedro Alexandrino de Carvalho no interior da camarinha, no seu painel exterior, nos entalhos dourados da proa, com um dragão alado, na popa ricamente ornamentada com as armas reais de D. Maria e nos motivos mitológicos, executados por Manuel Vieira.
Também impressiona o ouro fino policromado da caixilharia de espelhos venezianos na camarinha e o costado decorado ao estilo renascentista.
O Bergantim Real era propulsionado por 40 remos manobrados com 80 remadores, sob o comando de um patrão e do cabo proeiro.
Durante os anos da sua atividade, esta embarcação esteve sempre presente em acontecimentos decisivos para a história de Portugal. Em 1807, na primeira invasão francesa, transportou a família real portuguesa desde o cais das colunas até ao bordo da esquadra, para a transferência de transporte na viagem ao Brasil. Também transportou chefes de estado estrangeiros e navegou pela última vez, em 1957, por ocasião da visita oficial da Rainha Isabel II de Inglaterra. No ano de 1963, foi incorporado no Museu de Marinha, onde recuperou todo o seu esplendor.
Batalha Naval Cabo de São Vicente
Merece toda a nossa atenção, esta pintura em óleo sobre tela da autoria de Antoine Léon Morel-Fatia, datada de 1842, não só pelo rigor histórico como pela sua qualidade artística.
Nesta obra, dedicada à Batalha Naval do Cabo de S. Vicente, podemos observar, ao centro e em primeiro plano, a fragata “Rainha de Portugal”, comandada pelo próprio Napier, depois da abordagem à nau “Rainha de Portugal” (com o pendão branco de D. Miguel) – um navio muito maior e com duas baterias.
No contexto da guerra civil portuguesa, a 5 de julho de 1833, travou-se uma batalha naval no Cabo de São Vicente, entre as forças liberais e miguelistas. Confronto esse, que acabou por ser decisivo no desenrolar deste conflito e foi o último travado exclusivamente entre navios de vela da Marinha Portuguesa.
A esquadra liberal, sob o comando do Vice-Almirante Charles Napier, tinha apenas seis navios: três fragatas, uma corveta, um brigue e uma escuna. De modo a apoiar as operações terrestres das forças liberais e determinado a garantir o controlo da faixa atlântica, Napier decidiu enfrentar a esquadra miguelista, que tinha uma superioridade numérica, porque era constituída por duas naus, duas fragatas, três corvetas, dois brigues e um xaveco, num total de 10 navios.
Os miguelistas estavam preparados para um duelo de artilharia, mas foram surpreendidos por Napier quando lançou-se à abordagem do inimigo, tentando o aprisionamento dos seus navios.
Após alguma luta, os navios miguelistas começaram-se a render, seguindo o exemplo do Comandante-chefe Torres de Aboim, cuja nau se rendeu sem dar um único tiro. Esta vitória deu às forças liberais o total controlo do mar, conseguindo vencer a guerra em menos de um ano.
Arcanjo de São Rafael
Esta estatueta, esculpida em madeira, fez parte de uma das viagens mais importantes da história marítima portuguesa e mundial, a descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498. Provavelmente foi o testemunho material mais importante da armada que realizou esta travessia, comandada por Vasco da Gama.
No dia 8 de julho de 1497, sob as ordens do rei D. Manuel I, Vasco da Gama parte do Tejo com destino à Índia A sua armada era composta por duas naus, a S. Gabriel, da qual era o comandante, e a S. Rafael, comandada pelo seu irmão Paulo da Gama, constituída por uma caravela denominada Bérrio e uma naveta de transporte de mantimentos.
Na nau S. Rafael, comandada por Paulo da Gama, seguiu a estatueta do Arcanjo de São Rafael. Nesta viagem iria resultar a descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Em 20 de maio de 1498, a frota portuguesa chegou à Índia, após dez meses de viagem e depois de inúmeras dificuldades com obstáculos ultrapassados. Estava assim concluída, com grande sucesso, a primeira ligação marítima à Índia e definida a rota que anualmente cerca de três naus iriam utilizar como base para fazer esta longa travessia, a Carreira da Índia.
Durante a viagem de regresso, a nau do seu irmão Paulo da Gama acabaria por ser destruída nos baixios de São Rafael e a única peça que Vasco da Gama conseguiu recuperar, foi este Arcanjo. A partir desse dia, esta estatueta acompanhou sempre o Navegador Português nas suas viagens, em honra ao seu irmão falecido no mar, sendo essa principal razão do enorme valor histórico, porque “assistiu” à chegada dos portugueses à India e resistiu ao naufrágio do seu navio durante a viagem de retorno ao reino lusitano.
A imagem deste Santo voltou à Índia com Vasco da Gama e aí permaneceu após a sua morte até 1524. Em 1600, regressou às suas origens, trazida por D. Francisco da Gama, seu bisneto. No ano de 1880, esta estatueta foi para os Jerónimos acompanhando a transladação dos ossos de Vasco da Gama para o Mosteiro. Em 1950, acabaria por ser doada ao Museu de Marinha, onde permanece atualmente, pois é considerada por muitos, como a mais importante peça do espólio na exposição permanente desta Instituição, porque pertence aos testemunhos mais antigos expostos.
Texto: Jean-Pierre Blanc
Fotografias: Museu da Marinha

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