Memórias IV

Memórias IV

“Adormeci e sonhei que a vida era alegria;
Acordei e vi que a vida era dever;
Agi e conclui que o dever era alegria”

Mas voltemos de novo à escola, avancei na era
Para numa cronologia em sequência lógica
Descrever sacrifícios satisfação de quimera
Rumar ao futuro ligando a acção cronológica

Sentindo-me o mais desprezível dos meninos
Por estar entregue a mim próprio e fracos meios
Cometia pequenos delitos que eram tidos como cretinos
O que para uma criança naquela idade eram devaneios

Não havia maus-tratos corporais, esses seriam aceites
Mas discriminação em conversas e prendas
Em atitudes normais para idosos e adultos “com azeites”
Que me feriam no mais íntimo com ditos de oferendas

Um exemplo vou dar, de atitude discriminatória
Quando a avó, em festa ou convívio familiar prometia
Presentes a todos os netos com boa oratória
Este insignificante era insultado e merecia

Ainda hoje me parece ouvir a avó em sussurros
Ao Manuel uma caneta, ao Fernando uma pasta, dizia
À Júlia uma saia, à Laura boneca, a ti carapuço de murros
Esta era a resposta que invariavelmente ouvia

Em casa era poupado a trabalho e dormia
Fim-de-semana irmão e irmã um escudo os animava
Ao mimado nem tostão não ajudava não produzia
Eles não gastando amealhavam, que os escudos furtava

Logo que chegavam das lides do campo ou padaria
Ouvia “sermão e missa cantada” dos progenitores
Pedia que me castigassem dos erros que cometia
Visto que reprimendas eram castigos sem dores

Olhado como pirata por adultos, me sentia injustiçado
Os jovens achavam e tinham inveja da vida de Padre
Afinal, injustiçado, privilegiado ou inadaptado
Opinião válida, a do tio Manuel meu primeiro compadre

Dizia ele homem que sofrera acidente de trabalho
Nós, sempre fomos injustiçados pelos conterrâneos
Todos partimos da mó de baixo e vencemos o orvalho
De tantos e injustos comentários extemporâneos.

Por uma tia incentivado escrevi, àquela que por magia
Iria despertar em mim novo ânimo, a menina roliça
Que me fazia acordar desta grande letargia
E me impulsionar tirando-me neste sentido a preguiça

Carta enviada a pedir namoro teve resposta
Acusando a recepção e aumentando a esperança
Aquando da volta à terra em Julho velaria proposta
Em amistosa conversa enquanto fazíamos a dança

Iniciamos namoro em regras ditadas por sua tia
Sempre presente, ou com familiar na sua ausência
Não fosse o amor levar a acto ilícito por simpatia
Desvirtuando donzela e depois cumprir penitência

Ambos nos considerávamos bons cristãos castros,
Oportunidades que surgiram e sempre contidas
Hoje sinto-me ingénuo por não ter amado nos pastos
Assim iniciada não chegaria a situações tão doloridas

Deste modo a minha dúvida não seria aviltante
Com a afirmação de que havia perdido a virtude
Em acto médico, não justificado, seria um amante
A dúvida que ainda perdura, seria mesmo a saúde

Não mais escreverei, foi chão que deu uvas
Se me enganei aos céus peço perdão e crédito
Se a dúvida tem razão deve ser, assenta como luvas
Encerrado está o romance predestinado sem mérito

Parti e deixei-te só
Só eu fiquei também
Tu só e triste “Mãe”
Eu só e sem ninguém

Foi naquela manhã de Novembro, dia vinte
Entrando num grande navio, triste? Contente?
Eram comoventes, as lágrimas e dor de videntes ouvinte
Liberdade, liberdade, mas responsabilidade ausente

O menino fora emancipado homem depressa demais
Mal ajuizava o que estava de tormenta a surgir
Logo que mar alto alcançava “barra de Cascais”
Tonturas, desequilíbrios e dores de cabeça fazem reflectir

Então chorei longas horas em bastos dias
Já não tinha presente o amor e carinho de alguém
Que afastasse ou minorasse tais agonias
Para trás ficava a mãe e a amada também

Como iria suportar tão grande isolamento?
Comer não conseguia, beber não podia
Terra já não alcançava, só mar e o firmamento
Alternativa, dormir, dormir, dormir noite e dia

A ilha da Madeira dois dias depois admirei,
O navio não encostava, não era o primeiro
E mais ainda com a desilusão frustrante chorei
Admirando ao largo aquela pérola sem dinheiro

No camarote se juntaram viajantes batoteiros
Que incitavam ao jogo jovens ingénuos e indefesos
Para lhe extorquirem valores ou dinheiros
Usando métodos ilegais para os deixar “tesos”

Mas a inteligência supera os que se sentem vividos
Deixando-me ganhar para me entusiasmar
Depois de tudo o que de valor tinha e acrescidos
Nos bolsos ou carteiras tudo reter e jublimar.

Quando a pouco e pouco aos cinquenta escudos cheguei
Num vómito desenfreado expeli nos ocasionais
Afugentando os batoteiros e no baú lucro guardei
O que tinha ganho o ingénuo aos profissionais.

Nutrir o estômago era agora acto primordial
Nova etapa, a maior de céu, sol e água
Enquanto navio fundeado, comer como um animal
Para poder assim escapar à tortura e mágoa

Nova partida rumo à ilha de São Tomé
Ilha de encanto com sol, chuva e muita verdura
Só a ela cheguei e de longe admirei, pela fé,
Doutro modo a morte seria mais que segura

Valeram-me os batoteiros outrora vencidos
Um deles, “o barbeiro” não era tão má criatura
Ao camarote ia buscar-me levantando-me e me vestia
Para o convés me levava com paternal ternura

Agradecido abri garrafão de vinho abafado
Bebiam, faziam festa e me animavam
Em poucos dias de animação era o dito acabado
E amigos ficamos enquanto comigo navegavam

A imaginária linha ultrapassada, equador passado
Festa com grande pompa e muita alegria
Eu porém, já muito fraco mesmo assim pasmado.
Que loucura aquela na tarde e noite daquele dia

Um grão de fé e esperança alcancei,
Quando ao sétimo dia de navegação se vislumbra
Aquela ilha que orgulhosamente atrás citei,
Quando já na minha morte via na penumbra

Nesta situação de deserto, Senhor Jesus
Se por demérito o inferno merecer
Não me dês vida de mar, pois tal cruz
É para mim pior do que no fogo a arder

Sentado venerando a serenidade daquele mar 
Olhando admirado os tubarões à volta do navio
Recuso nas pequenas pirogas para uma ilha navegar
Só as frutas me animaram o estômago vazio

E eis que nova partida é já dura realidade
Neste oceano, outrora do “cão” do “Dias” do “Gama”
Só mais dois dias a esperança da verdade
Terra firme pisar e rejeitar o beliche cama

Grande Baía de Luanda lindíssima à vista
Grito como se fora para mim terra santa,
Terra de auspicioso futuro por Diogo Cão prevista,
E do império Português que Camões tão bem canta

Fraco cambaleante já em terra animado prossigo,
Primeira busca sem hesitação, restaurante
Como diz o povo saco vazio não fica erguido
Ao Tamariz fui matar a fome já repugnante

Agora era outro mancebo já da fome satisfeito
Podia admirar a bela cidade de Luanda e achar graça
À obra que por portugueses fora planeado e feito
E ainda longe Cabo da Boa Esperança ou desgraça

Não quero pensar no que está para surgir
Quero alegrar-me na diversão pecadora venial
Que mais além me espera o lobito genial
Desabafando mágoas, rir, dançar, divertir

(Continua na próxima edição)

Texto: António Rosa Brites Faustino

 

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