Lord Byron – O poeta incomodado

Lord Byron – O poeta incomodado

Extravagante para a época, um dos mais conceituados poetas e escritores inglês, Lord Byron, deixou o seu marco por todo o mundo. Muito viajado, morreu na terra dos deuses, a Grécia. Passou pelo nosso país, onde Sintra o deixou maravilhado. Considerava-a o paraíso!

George Gordon Noel Byron é conhecido como um dos escritores mais versáteis e importantes do Romantismo.

Nasceu a 22 de janeiro de 1788, em Londres, Inglaterra. É filho do Capitão John Byron, um bom-vivant que destruiu toda a riqueza da sua segunda esposa, Catherine Gordon of Gight, que vinha da família dos Gordons escocesa, tradicional e muito conhecida pela sua ferocidade e violência.

George Byron herda o título nobiliárquico e as propriedades do tio-avô William, em 1798, tornando-se, assim, o sexto Lord Byron da linhagem. Assumiu o poder da casa de Newstead, mas como a casa estava em ruínas, ele e a mãe mudaram-se para Nottingham.

A sua obra e a sua personalidade têm grande projeção na Europa do início do século XIX, por representarem o melhor da sensibilidade da época, atribuindo-lhe muito de sedução e elegância mundana.

Lord Byron exprime o pessimismo romântico, com a tendência a voltar-se contra os outros e contra a sociedade. O tom declarado de rebeldia perante as convenções morais e religiosas era uma constante. Contudo, abraçou com entusiasmo causas humanitárias.

Este poeta inglês encarna uma variedade particular do romantismo, feita de violência e de provocação, de orgulho e de revolta – o byronismo.

Como moda literária, o byronismo espalhou-se pela Europa até às últimas décadas do século XIX, com projeções crescentes e importantes nos países jovens da América.

A vida de Lord Byron foi extremamente aventurosa: longas viagens, amores escandalosos, morte entre os revoltosos gregos que combateram pela independência.

Em 1809, com apenas 21 anos de idade, ingressou na Câmara dos Lordes e partiu numa viagem de dois anos pela Grécia, Portugal e Espanha. Nesta viagem começou a escrever Childe Harold’s Pilgrimage (A Peregrinação de Childe Harold), sobre as aventuras de um herói e a natureza da Península Ibérica. Esta obra foi um sucesso em vários países europeus. Aquando da sua passagem por Portugal, Lord Byron ficou maravilhado com o ambiente de neblina e mistério de Sintra. O poeta descreve Sintra como um paraíso “A vila de Sintra na Estremadura, é talvez, a mais bela do mundo inteiro”. E acrescenta: “Eis que em maior labirinto de montes e vales, surge o glorioso Éden de Sintra. Ai de mim! Que pena ou que pincel logrará jamais dizer a metade das belezas destas vistas mais deslumbrantes que essas outras, em que fala o poeta que abriu ao mundo, tomado de espanto, as portas do Elysio?” Esta viagem deixou uma boa impressão em George Byron.

A liberdade e a franqueza dos gregos não passaram despercebidas para o jovem Byron, cansado da rigidez e da hipocrisia dos ingleses.

Em 1816, o pedido de divórcio de Anne Milbanke, Lady Byron, após um ano de casamento, escandalizou a sociedade inglesa, que o associou aos rumores de incesto do poeta com a sua meia-irmã Augusta Leigh. Aliás, as escolhas sexuais e amorosas de Lord Byron eram bastante dúbias, principalmente aos olhos da época. Com sete anos, Byron apaixonou-se perdidamente pela sua prima, Mary Duff, e aos nove, a sua ama introduziu-o nos prazeres da carne. Quando voltou à escola, envolveu-se com colegas, professores e prostitutas. Foi então que Byron resolveu deixar a Inglaterra.

Desta vez o rumo foi a Suíça, onde escreveu o canto III de Childe Harold’s Pilgrimage, The Prisoner of Chillon (O Prisioneiro de Chillon) e o poema dramático, enigmático e demoníaco, Manfred. Em Genebra fez-se amigo de Shelley. Passaram muito tempo a discutir filosofias e poesias. Chegaram, inclusive, a trocar rosas e carícias. Em 1822, Shelley morreu afogado. Byron ficou devastado.

No ano seguinte, em 1823, foi nomeado membro do Comité Londrino pela independência da Grécia, partiu para o país dos Deuses do Olimpo e lutou ao lado dos gregos contra o opressor, que era a Turquia. A Grécia atual é um país independente, apenas desde 1829.

Byron, ferido, acabou por contrair uma febre que o levou à morte, a 19 de Abril de 1824, com apenas 36 anos de idade.

Ao que consta, morreu numa praia, dizendo para um amigo que o acompanhara: “É chegada a ocasião de descansar”. O mundo perdia um dos mais empolgantes escritores de todos os tempos.

Adorado na Grécia, Byron foi embalsamado e o seu coração foi retirado e enterrado em solo grego. Os restos mortais foram transportados para Inglaterra, mesmo sendo contrário aos seus desejos. Ao chegar a Londres, a Abadia de Westminster recusou-se a receber o funeral, alegando que ele era um pecador irreparável. Mesmo assim, o cortejo fúnebre foi assistido por milhares de pessoas. Lord Byron foi enterrado na igreja Hucknall Torkard, ao lado de sua mãe e restantes gerações da sua família.

Curiosamente, 145 anos após a sua morte, em 1969, a Abadia de Westminster construiu um memorial em homenagem ao mais libertino dos poetas ingleses.

De seguida, destacamos um poema para recordar, cujos versos foram inscritos numa taça feita de um crânio por este poeta:

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito,

Vê em mim um crânio, o único que existe,

Do qual, muito ao contrário de uma fonte viva,

Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu, morri

Que renuncie a terra aos ossos meus

Enche! Não podes injuriar-me, tem o verme

Lábios mais repugnantes do que os teus.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,

Para ajudar os outros brilhe agora e;

Substituto haverá mais nobre que o vinho

Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus

Já tiverdes partido, uma outra gente

Possa redimir-te da terra que te abraçar,

E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza

Através da existência – curto dia –

Redimidas dos vermes e da argila

Ao menos possam ter alguma serventia.

Texto: Telma Duarte

 

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