Como ensinar o cérebro a autorregular-se?

Como ensinar o cérebro a autorregular-se?

É possível redesenhar o cérebro? É. A neuromodulaçao endógena ou neurofeedback é isso que faz, estimula a mudança. Uma nova terapêutica não invasiva, nem dolorosa que permite aprimorar as capacidades do cérebro. Um avanço na saúde mental

O cérebro não é apenas um órgão com aproximadamente 86 mil milhões de neurónios que comunicam entre si, é o artífice de tudo o que nos torna realmente humanos – o pensamento abstrato, o amor, a criação artística, a ética, a espiritualidade e a própria experiência de existir. Como diz o neurocientista António Damásio, “o cérebro não é apenas um computador, é um órgão que sente, sofre e aspira”.

A comunicação entre os neurónios que, através de descargas elétricas, recebem e transmitem informações, é essencial para o bom funcionamento físico, cognitivo, mental e emocional do ser humano. Contudo, este funcionamento pode ser afetado por vários fatores: herança genética, trauma, problemas ambientais, alimentação, stresse, hábitos de vida, problemas de saúde, condições neurológicas, etc..

O que é o neurofeedback ou neuromodulaçao endógena?

neurofeedback é uma intervenção terapêutica, não invasiva e não dolorosa, que permite aprimorar o funcionamento e as capacidades do cérebro através da regulação da sua própria atividade. O desenvolvimento do neurofeedback (método Othmer) surgiu na década de 1970, quando investigadores como Joel Lubar e Barry Sterman descobriram que era possível reduzir a hiperatividade motora em crianças e diminuir o risco de convulsões, usando o reforço positivo de certas ondas cerebrais.

Como funciona?

Num primeiro momento, efetua-se a anamnese completa do paciente e estabelece-se um plano de tratamento, de acordo com a sua condição atual, sintomas e objetivos. São colocados elétrodos no couro cabeludo e existe um software, ligado a um ecrã, que avalia as ondas cerebrais, nomeadamente os seus padrões, amplitudes e frequências, fazendo um registo do eletroencefalograma (EEG).

Estes dados são descodificados e transformados pelo software em estímulos visuais, auditivos e táteis que a pessoa recebe, em tempo real, durante a sessão. Por exemplo, em casos de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), a imagem projetada num ecrã fica mais nítida, com cores mais vivas (feedback visual), o volume da música aumenta (feedback auditivo) e o aparelho tátil vibra (feedback tátil) quando o foco aumenta.

Através da informação sobre os seus padrões elétricos (ondas cerebrais), que refletem diferentes estados mentais (foco, relaxamento, ansiedade, etc.), o cérebro aprende, assim, a autorregular-se, a autocorrigir-se, a reforçar padrões saudáveis de forma natural, criando um impacto positivo nas funções cognitivas, emocionais e comportamentais. O protocolo é inteiramente personalizado e adaptado aos objetivos e à evolução de cada pessoa. O diálogo com o neuroterapeuta é uma constante.

Existem vários tipos de neurofeedback?

Sim, existem vários tipos de neurofeedback. O tipo usado no Centro Cirúrgico de Coimbra é o Neurofeedback terapêutico Cygnet (método Othmer), em que o dispositivo e o material usado são reconhecidos como neurofeedback médico pela FDA (Food and Drug Administration dos Estados Unidos) e pela EMA (European Medecines Agency). É um tipo de neurofeedback dinâmico (usa várias bandas de frequências, dependendo da pessoa). O protocolo é altamente personalizado (baseia-se nos sintomas de cada indivíduo), usa frequências ultrabaixas (0,1hz), é o único que tem tecnologia que permite libertar os traumas profundos (ondas cerebrais alpha-theta) e as técnicas baseiam-se e são atualizadas em função da evolução no domínio das neurociências e da investigação científica.

Quem pode beneficiar?

Qualquer pessoa pode beneficiar do neurofeedback. Esta técnica é indicada para pessoas de todas as idades, sendo aconselhada uma consulta de avaliação prévia, para discutir a pertinência do tratamento, em função da situação e dos objetivos que se pretendem alcançar.

Exemplos de situações em que o neurofeedback é aplicado:

  • PHDA, Ansiedade, Espectro do Autismo, Perturbação de Stresse Pós-Traumático
  • (PSPT), Epilepsia, dificuldades na regulação emocional (medo, stresse, impulsividade);
  • Melhoria nos sintomas e bem-estar em doentes com doenças neurodegenerativas
  • (Parkinson, Alzheimer, etc.), favorecendo a recuperação de funções cognitivas e motoras, em conjugação com outras terapias;
  • Bem-estar: autoconhecimento, regulação do sono, humor e condições crónicas;
  • Alto desempenho: melhoria na performance cognitiva, emocional, física e de memória, em atletas, executivos, profissionais e estudantes.

Contraindicações: epilepsia não controlada, esquizofrenia ou psicose (sem avaliação e supervisão médica).

Evidências científicas

Este método de neurofeedback foi alvo de uma evolução constante, com protocolos iniciais baseados em condicionamento operante, até um modelo mais dinâmico, usando frequências cada vez mais baixas, com aplicações clínicas cada vez mais específicas e com resultados validados por um número crescente de estudos científicos.

A investigação científica tem corroborado a eficácia deste método em varias áreas, tais como:

• Melhoria na atividade cerebral (redes neuronais, linguagem, conectividade funcional);

• Saúde mental: redução de sintomas – depressão, PSPT, ansiedade – e melhoria significativa na atenção em PHDA, com resultados semelhantes à medicação e sem os efeitos negativos associados;

• Condições físicas ou neurológicas: fibromialgia, concussão cerebral, dor crónica, melhoria no sono (insónia), epilepsia e regulação do sistema nervoso;

• Alto Desempenho: melhoria de foco e de capacidade de memória em atletas, executivos e estudantes.

A neuromodulação endógena implica também uma mudança de paradigma na saúde mental: os doentes deixam de ser meros espectadores e transformam-se em artistas ativos a redesenhar as cores (representação das ondas cerebrais) do próprio cérebro – uma obra de arte em constante evolução, onde cada sessão é uma pincelada, rumo ao equilíbrio.

Texto: Dra. Cláudia Quintans, Psicóloga Clínica e Terapeuta de Neurofeedback
Centro Cirúrgico de Coimbra

 

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